quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

História do Dia - "Não é Camelo"

Não é Camelo

 
Ninguém gosta que o tratem por camelo.
- Seu camelo, não sabe parar nas zebras?
Não é conversa de savana nem de jardim zoológico, mas fala de peão furioso para automobilista desastroso, perigoso, criminoso, que não sabe abrandar nas passagens zebradas.
- Camelo é você, sua besta - dirá em resposta o vergonhoso automobilista, mas sem razão nenhuma.
De facto, ninguém gosta que o tratem por camelo. Principalmente o dromedário.
- Não sou camelo - enerva-se o dromedário. - Eu só tenho uma bossa. O camelo tem duas.
Mas há sempre quem faça confusão.
Para que não sobrassem dúvidas, o dromedário mandou espalhar um anúncio com os seguintes dizeres: camelo - 2, dromedário - 1. Ia resultar, ele tinha a certeza.
Quando os turistas, armados de máquinas fotográficas, desembarcassem e vissem um dromedário, não gritariam, todos excitados:
- Olha um camelo!
- Vai chamar camelo ao filho do teu paizinho, meu grande burro - diria o dromedário, entre dentes.
Com aqueles cartazes acabavam-se as confusões.
Não acabaram.
- Olha: os camelos ganharam aos dromedários por dois a um - diziam os turistas.
- Camelos! Camelos! Camelos! - gritava, para dentro, o dromedário.
Até que resolveu mandar colar pelas paredes outro anúncio, com os seguintes dizeres: 1 dromedário + 1 dromedário = 1 camelo.
Percebia-se a intenção. Uma corcova mais uma corcova, igual a duas corcovas. Só os camelos é que não gostaram da comparação. Um camelo igual a dois dromedários? Que era lá isso?
Vieram, muito zangados, pedir explicações ao dromedário. Ou ele desistia do afrontoso cartaz ou havia guerra.
O dromedário, que era pacífico, mandou arrancar os cartazes. Vendo bem, os camelos tinham alguma razão.
- Olha um camelo - gritava um turista, apontando-lhe a máquina fotográfica.
- Pacífico seria, mas naquela altura, não aguentando mais, o dromedário deu um coice, que estatelou o turista. Depois, assustado com o que fizera, fugiu.
- O malandro do camelo ia-me matando - queixava-se o turista.
- Onde é que ele está? Para onde é que ele foi? - perguntou um polícia árabe, acorrendo.
- Naquele sentido - apontou o turista.
- Eu já o apanho, descanse - prometeu o polícia.
Pôs-se a correr e, pouco adiante, passou pelo dromedário, sem lhe ligar. O polícia árabe sabia distinguir um dromedário de um camelo.
- Viste um camelo a fugir, nesta direcção? - perguntou o polícia ao dromedário.
- Não reparei - disfarçou o dromedário. - Porquê?
- Porque parece que esse camelo deu um coice a um turista. Se eu o apanho... - ameaçou o polícia com o chanfalho, apressando o passo.
O dromedário viu-lhe os calcanhares e suspirou fundo. Pela primeira vez sentia que a confusão entre camelos e dromedários lhe tinha sido favorável.

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Autor do mês de janeiro - Cesário Verde


 
Biografia

José Joaquim Cesário Verde nasceu no dia 25 de fevereiro de 1855 em Lisboa, filho de uma família abastada da burguesia. O pai era comerciante e lavrador, ocupando-se, em simultâneo, da sua loja de ferragens e da lavoura numa quinta em Linda-a-Pastora, a cerca de dois quilómetros da capital, propriedade da família Verde desde 1797.

Foi nesta quinta que Cesário passou grande parte da sua infância, juntamente com os seus três irmãos, Júlia, Joaquim e Jorge, e na quinta se refugiara por diversas vezes ao longo da sua breve vida.

Cesário cresceu num ambiente abastado, senão mesmo rico, avesso a preocupações religiosas e estéticas. Assim, Cesário não deve ter recebido formação nestas áreas, pois não se encontra na sua poesia referências a Deus nem à vida sobrenatural.

Em 1872, aos dezassete anos, começou oficialmente a trabalhar na loja do pai, como correspondente comercial. Com apenas vinte e quatro anos, substituiu o pai na direção da firma, alargando os negócios. Apesar de poeta, desde a década de 70 que Cesário não mais deixara de estar envolvido no universo dos negócios, sobretudo na exportação de legumes e fruta para Inglaterra, França, Alemanha, América do Norte e Brasil.

Em 1873, Cesário Verde começa a publicar os primeiros poemas no "Diário de Notícias", onde é apresentado como um moço quase imberbe, ingénuo, rosto e alma serena, fronte espaçosa, olhar perscrutador, cheio de aspirações elevadas. A receção aos poemas publicados foi péssima. Os leitores, habituados ao sentimentalismo romântico, detestaram aqueles versos sobre a realidade quotidiana da cidade e do campo; mesmo os escritores da geração realista (Ramallho Ortigão, Teófilo Braga e Fialho de Almeida, que acabariam por admirar a obra de Cesário) começaram por lhe fazer críticas demolidoras. O poeta, incomodado com esta incompreensão, escreve no poema "Contrariedades", datado de 1876, Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, / Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, / Um folhetim de versos.

No entanto, continua a escrever e a conviver com alguns amigos ligados às letras, como o poeta Gomes Leal, Macedo Papança (Conde de Monsaraz) e sobretudo Silva Pinto, o seu colega de faculdade e amigo até à morte. A partir de 1881, convive com os artistas e literatos do "Grupo do Leão".

Da sua vida sentimental nada ficou registado, mas há quem lhe aponte uma ligação pouco pacífica com a actriz Tomásia Veloso.

Numa carta que em 1877 escreve ao seu amigo Macedo Papança, Cesário queixa-se de problemas de saúde e este é o primeiro sinal da doença que entrara na casa da família Verde como em muitos lares daquele tempo - a tuberculose. De facto, em abril de 1872, morrera, aos dezanove anos, vítima de tuberculose, a sua "doce irmã" Júlia e, dez anos mais tarde, a mesma doença vitimaria o irmão Joaquim, que contava apenas vinte e cinco anos.

Cesário lutava contra a falta de saúde mas, a partir de 1884, a tuberculose progrediu e o poeta viu-se obrigado a procurar os ares do campo, refugiando-se na sua quinta em Linda-a-Pastora, depois em Caneças e, por fim, no Lumiar. É aí que morre, a 19 de julho de 1886. Tinha trinta e um anos.


Cinismos

Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar-lhe a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!

E eu hei-de, então, soltar uma risada.

Lisboa, 1871